terça-feira, 28 de janeiro de 2014

BLOG INATIVO TEMPORARIAMENTE

Fui comprar cigarros
e não voltei

Fui encontrar
meu eixo
nesse mundo tão estanho e maravilhoso
tão cheio de assombramentos
que um monstro como eu
não tem lugar
ou talvez tenha...

Escrevi durante anos sobre amor, horror e sobre mim
pouco sabia sobre o que escrevia
descobri que me transformei em ficção
deixando a ficção tomar minha vida
e agora preciso de um tempo
para conhecer a realidade.

O real também é bom.
Recomendo a todos que fechem os livros e esse blog
abracem as pessoas que amam
falem tudo tudo, sempre a verdade
e deem um passeio sem destino.

obrigado por quem passou por aqui.
obrigado pelo amor, isso ainda existe
eu sei.
acredite.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

CASABLANCA (Edu Reginato)


Quando era menino, dei uma caneta e uma flor para uma garota enorme pensando que ela me amava. Ela riu e afagou meu cabelo, achando uma gracinha.
Quando era garoto me declarei para a irmã de um amigo meu e ela disse que não gostava de mim, mas que meus olhos eram lindos.
Quando rapaz deixei uma rosa e um bilhete na porta de uma garota que gostava e ela chegou com o namorado montada numa motocicleta. Não viu rosa, não viu bilhete. E eu nunca aprendi a dirigir.
Quando me tornei homem dei um poema para uma mulher que achava linda. Ela achou bonito. E percebi naquele momento que eu nada entendia de poemas, mulheres, amor.
Quando homem, percebi que não cresci. Ainda era um garoto parado no tempo que só sabia fantasiar e não realizar.
Queria o maior amor do mundo como dissera numa poema, o amor infinitivo, mas cego e limitado projetava castelos de ar.
No cinema, olhei para aquilo que sempre quis. Olhei para as histórias impossíveis e possíveis. Os amores eternos que findavam ou permaneciam. Inundei meu mundo com essas imagens, colei fotos de beijos de filmes atrás da minha porta no meu pequeno quarto. Descobri que tinha que fazer aquilo e quem sabe viver aquilo. Quando assisti A Rosa Púrpura do Cairo, entendi o que Woody Allen queria dizer. O cinema é o lugar para vivermos nossas paixões e fantasias, mas é impossível viver o cinema na realidade, pois não há roteiro, não há uma estrutura pré-determinada que tem sua finitude no The End e você pode reassistir e viver novamente. O The End da realidade é incerto, pode ser agora pode ser distante e se for distante muito há de vir, muitas reviravoltas e nenhum texto definido.
Casablanca passou por muitos tratamentos de roteiro e muitos roteiristas e até o The End nada estava definido, no entanto chegou-se ao final mais inesperado. A ruptura e o sacrifício de um amor, que grande besteira. Até hoje odeio Bogart, odeio seus roteiristas e adoro esse filme. Casablanca me mostrou que o cinema pode nos destruir com suas histórias, pode sacrificar nosso amor por projetarmos todas nossas angústias e desejos na recompensa de um final feliz.
Daí para frente nunca fiz um final feliz, poderia ser um final satisfatório, mas não feliz.
Fui contaminado por Casablanca, como um resfriado que nunca termina.
Sempre desejei um final diferente para mim, sempre desejei viajar com a mulher amada para Londres ou Paris, sempre desejei conversar horas com a garota dos sonhos num sofá sem pretensão alguma de tirar sua cabeça do meu colo. Sempre desejei ser o homem que desperta o sorriso de amor, orgulho e tranquilidade no rosto de uma mulher.
No entanto, me tornei bruto vestindo uma fantasia de poeta, encasulado na minha própria autocomiseração.
Deixei meu quarto, deixei as fotos pregadas atrás da porta. A casa não existe mais, nem aquela porta. Saudade.
Queria agora ouvir, ouvir todas as vozes. Ouvir a altiva e a doce. Queria toda a realidade sem filtros sem censuras, sem medo de mim, queria a confiança em mim de volta, a confiança na minha palavra na minha voz. Queria minha voz sendo aquela que ouvia e acreditava. Queria que meus olhos trouxessem tranquilidade para a realidade. Queria que meus olhos e minha voz reafirmassem um final feliz.
Queria que uma história de amor não fosse um fardo, um pecado a se carregar. Queria o meio termo, a porta entreaberta entre as fotos de sonhos e o corredor real daquela casa.

Queria pedir perdão, por Bogart por Mim.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

CALOR (Edu Reginato)


Até podia pensar
na compra daquele
ar
condicionado
da liquidação
do estoque
pós-feriado.
Doze mil btus,
valeriam quanto
da minha tranqüilidade?
Sou tão quente
que sai vapor
e a pele morena fica
esfumaçante
falta
ar
paciência
chão
nesses dias quentes
de verão.
Seriam duas caixas enormes
uma retangular
outra quadrada
vi no You Tube
unboxing
felicidade
de dias frios
na cara de
americanos rechonchudos
vermelhos
pitus.
Ar encaixotado.
Ah quem me dera
ser gelado
como Ice Smirnoff.
Um Frosty mediterrâneo
um corneto napolitano
um sacolé da dona Matilde.
Tão quente sou
derreto geleiras
causo efeito estufa
sou verão não primavera
planetas orbitam ao meu redor
passam cenoura & bronze
quando me aproximo
bebem mais água
mais coca-cola zero
meu amor
deixo-a desidratada
sou seu sol na noite.
Um preço que vale,
ser assim diferente.
Mão quente
olhos quentes
sangue quente.
Hoje faz quarenta graus
estou largado numa
banheira com
água gelada
regulando temperatura
tão quente
tão frio
sem você.
Mergulho meia cabeça
ouvidos submersos
parece o silencio do mar.
Escuto cantos de baleias
escuto conversas de conchas
fofocas de sereias
até Yves Montand canta por aqui
Oh, je voudais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis
En ce temps-là la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Mui quente esse Montand.
Mergulho por inteiro
chuveiro teto rachaduras
desaparecem.
O mar mergulha em mim
me sinto refrescado
sem calor
sem tristeza
sem dor
ali estou em você
você cuida de mim
num abraço líquido
por todo meu corpo
eu sou feliz sem ser amigo do rei
pois ali eu sou rei e toda você,
rainha.
Ah mar me leva contigo
por ondas geladas de tuas mãos
tira esse calor de mim
me enche de teu afeto refrescante
me afogue em sua ternura
salgue meus olhos com suas lágrimas
ria com seus dentes de pérolas da minha cara
de bobo quando te vislumbro
do fundo
onde eh mais frio e acolhedor
e misterioso
onde celacantos dançam
valsas noturnas
onde sereias roubam beijos
de hipocampos
onde bioluminescências
são fadas.
O ar me falta, fico à deriva,
sem jangada, sem Sexta-feira,
náufrago na banheira

ainda sentindo calor.

domingo, 29 de dezembro de 2013

POÇA DE LAMA (Edu Reginato)


Naquele verão de 1986,
a grama havia crescido um palmo,
o cheiro do rio adoçava o ar
tão rarefeito,
pouca umidade, tudo seco
tudo vermelho como a terra cavocada
pelas máquinas daquela cidade nunca terminada.
Crianças sufocadas
éramos
todas na casa dos dez anos
crianças que corriam com baldes d’água
encharcando a terra
deitando na lama e olhando para o azul
como lagartas suicidas.
Jonas tinha um walkman,
sua fita tocava Smiths,
nem sabia quem eram, nem importava,
ele queria ser médico eu caminhoneiro
Letícia uma estrela Lucas um bombeiro ou ginecologista
como o pai.
Só queria estar ali, me manter ali,
seguro na lama, enquanto o mundo mudava,
toda a terra se revirava, sentia
a água evaporar e a lama secar
virava um torrão de terra
um pedaço do mundo
e a grama seca engolia metade de mim,
aquele terreno infinito de grama
sem árvores, sem horizontes de sol
só horizontes de prédios a sua volta.
Eu, o torrão de terra, viajo
para o futuro no meu caminhão estelar
movido a lixo atômico.
Como sera que estarei no futuro?
Será que encontrarei a garota
que me aparece em sonhos?
Será que ela sabe que estou aqui
deitado na lama com Jonas, Lucas
e Letícia?
Letícia olha pra mim e pergunta
o que estou pensando.
Digo que no futuro.
Ela pergunta “o que é o futuro?”.
Eu digo que não sei.
Foi algo que a garota sussurrou para mim.
Falou assim "te vejo no meu futuro".
E eu fico procurando esse futuro,
olho pensando ser um lugar.
E seria um lugar, o futuro?
E seria o futuro uma menina
que aparece nos sonhos?
Letícia olhou para mim,
pegou minha mão cheia de barro
disse "sei..."
"sei o que?", perguntei meio desligado
"sei que ela estará lá", respondeu, sorrindo,
aquela menina com a cara cheia de barro.
Ficamos na poça de lama por horas
até nos tornarmos terra
até o tempo passar
a grama crescer e secar
e o futuro chegar.
Nunca mais vi aqueles amigos,
mas encontrei aquela garota dos sonhos.

Sou feliz. E jamais dirigi um caminhão.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

LADRÃO DE FILMES - um rascunho da introdução (Edu Reginato)


- Que se faz? Você trabalha com quê?
- Trafico filmes.
- O que? Aqueles piratas?
- É. Tipo isso.
- Filmes de merda!
- Não esses. Raros. Trafico filmes raros, quase impossíveis de se encontrar.
- Tipo "E o vento levou".
- (risos) Melhor. Isso é bobagem. Esse tem em qualquer lugar.
- Ah...
- Trafico filmes esquecidos ou desaparecidos.
- Por que você fala traficar? Filme não é droga!
- Pô, baby, filme é coisa que vicia. Ainda mais os filmes que poucos assistiram. Para a pessoa certa é como cocaína. O viciado não para de olhar. Ele assiste, assiste, nunca tem fim. Mas, seria melhor comparar com um quadro valioso numa parede. Saca? Uma obra que poucos possuem.
- Você já foi viciado?
- Já. Mas, hoje não assisto mais nada, desacreditei na magia. Só rastreio os filmes.
- Mas, num tá tudo fácil com a internet? Os caras não baixam tudo por lá?
- Às vezes sim, mas os mais caros são aqueles que estão muito escondidos, debaixo de toda primeira camada da internet, daí gente precisa de uns canais obscuros tipo sites particulares russos, gregos, chineses, etc. Coisa pra poucos.
- Caraca, parece coisa de espionagem!
- A maioria das vezes parece ser. Os russos parecem ainda estar na guerra fria.
- Você ganha muito dinheiro?
- Depende... do filme.
- O que? Tipo filme de putaria sinistro?
- Não, mas tem. Só trafico filmes de arte.
- Tipo que filme te rendeu uma grana?
- Baby, tinha um filme chamado London After Midnight, diziam que os negativos estavam perdidos no incêndio de um estúdio americano chamado MGM que aconteceu em 1967. Esse filme era com um ator chamado Lon Channey. Filme simples, de terror, coisa que valeria só para cinéfilo. Mas, não sobrou nada. Queimou tudo. Só sobrou as fotos da produção.
- Se queimou tudo como você conseguiu o filme?
- Ah, conheci um sérvio num desses sites russos. Conversávamos sobre filmes perdidos e mencionei a tragédia com o London After Midnight. E o cara jurou de pé junto que tinha esse filme. Falei pra ele que era engano. O cara insistiu. Falei que queria uma prova. Ele disse que não podia porque o filme estava dividido em vários rolos. Que o avô dele havia passado o filme para ele.
- Mas, cara, como pode?
- Sei. Foi isso que me perguntava. Daí o sérvio me explicou. O avô dele era ator de um grupo teatral e foi fazer uma turnê pelos Estados Unidos. O patrocinador da companhia teatral era um político muito rico que tinha um caso com a atriz principal. Na América, esse político rico que foi junto na viagem, comprou um aparato cinematográfico, pois pensava fazer filmes encabeçando sua atriz e amante. Eles compraram todo equipamento e muitos, muitos rolos de negativo virgem, daí ficaram testando o material. Na época, passava o filme London After Midnight num cinema perto do hotel onde eles estavam hospedados. O filme era com o Lon Channey um dos maiores atores vivos. O velho político foi assistir e ficou fascinado com Channey. Tinha certeza que o filme jamais chegaria à união soviética, daí resolveu filmar o filme da tela com o equipamento que havia comprado. Ele pagou uma grana para o dono do cinema e para o projecionista, e contratou um grupo de operadores de câmera para fazer as filmagens quando o cinema estava fechado. Daí ele pirateou o filme.
- Caraca! Ele pirateou o filme!!! Quando foi isso?
- 1927.
- Que???  Piratearam o filme em 1927? Tinha dessas coisas nesse tempo???
- Não que eu saiba. Louco, né?
- Mas, como o cara da internet tinha o filme? Como o avô dele pegou o filme?
- Com o firmamento do governo de Stálin, muitos opositores do governo foram derrubados do poder. O empresário teatral foi um desses que acabou sendo executado. A companhia teatral foi encerrada abruptamente, o avô do sérvio sem pagamento pegou o que podia da companhia para fazer dinheiro: alguns equipamentos de filmagens, figurinos e descobriu todos rolos de filmes que estavam no teatro e os afanou. Conseguiu vender a maioria das coisas, menos os rolos de filmes. No entanto, em vez de abandoná-los ficou com eles. Pronto! Fim da história.
- Fim porra!!! E como você conseguiu o filme?
- To meio cansado dessa história. Se depois rolar um amorzinho gostoso eu te conto o final!
- Tá, porra! Conta logo!
- Mas, antes pede uma porção de calabresa com cebola e mais dois chopps!

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

MARVELOUS HEROINE (Edu Reginato)


Acaricio teus olhos como bicos de seios
marrons empinados aureolas no seu rosto
tão branco e lívido avermelhado quando entre os dedos
sorria e me beije e me foda e me lamba e me suje
tua pele sua 
sua pele tua
tatua meu nome no teu dorso
marque teu domínio no meu peito
se aninhe nas minhas costas
cheire meus cabelos 
que te cheiro entre as pernas.
Te vejo em Klimt, a beleza do amor,
o amor tão belo que toda beleza é pueril
perto da sua delicada delícia
de vagina fatiada como uma romã
das nádegas lisas que Niemeyer jamais imaginou
então aperte o espartilho até fiar teu suspiro
ferro e tecido que modulam tuas costelas
tuas unhas dedos mãos
rasguem minhas entranhas 
me invada com todo seu corpo
vista minha pele
seja eu pois sou você
se enrosque nos meus nervos
manipule meus músculos
seja o tudo em mim
pois em mim estou em você
lace-me com teus fios de cobre
dê-me seu sangue 
tão ferroso grosso e quente
escorrendo por suas coxas,
meu amor, me sugue
encha tua boca de doçura
leve-me à Xanadu, minha heroína:
the wheels are in motion
and I, I'm ready to sail any ocean
suddenly I don't need the answers
'Cos I, I'm ready to take all my chances with you
Whenever you're away from me
wherever you go
you're never far away from me
I want you to know
I want you to know
I only have to close my eyes dear
and suddenly I'm where you are
you better never stray
'Cos I'll never be far away
Assim, os corpos tremem amolecem
descontraem e dois monstros ganindo
suam vapores gozosos
jurando eternidade nos teus laços
beijando suas alianças
lambendo suas feridas
e descansando no teu leito, maravilhosa,
toda branca bela
demônia do meu coração,
guerreira que transfixou meu self
roubou meu fantasma e guardou-o no receptáculo de sua alma:
dois sóis num mesmo poente.
Ah, minha heroína nua
salvou-me da desgraça
cravou-me tua maldição
secretou teu cheiro em mim
sou teu eu teu vão
tua porta entreaberta, teu susto
teu amor
e você, minha proteção.




domingo, 1 de dezembro de 2013

TE SOMOS (Edu Reginato)


Vago pela tua alma
Entreabrindo portas
Vejo pelas frestas teu passado
Tua história escrevendo histórias
No teu quarto de menina
Vejo você crescer, rodopiar junto a entidades no vazio
Vejo você ninar seu pai, vejo você sonhar acordada
Vejo você sorrir junto com Doris Day, vejo você se apaixonar por Cary Grant
Subo pelas escadas escutando ruídos,
São vozes, são músicas, tenho um pouco de medo.
Estou diante de uma porta ela está quente
Toco sua superfície e escuto teu coração
Teu corpo treme, um sopro, duas batidas contínuas fora do compasso
A porta é viva, cheia de veias que correm sangue, a maçaneta pulsa
Pulsa bombeando vida através de suas artérias
Giro a maçaneta, duas batidas e um sopro
Entro num quarto vazio. O que estava lá?
O que era para estar lá?
Sinto o quarto se reconfigurar, sinto ele se adaptar a mim
Sinto fazer parte do quarto. Porque esse quarto foi destinado a mim.
Tua alma é a casa que assombro.
Sou o espectro do seu amor,
Sou o fantasma da tua alma
E tenho um quarto onde permaneço.
Não foi você que mudou para essa casa
Fui eu que invadi seus domínios.
Não precisa de Ed e Lorraine
Nem do Padre Merrin
Nem de Tangina
Não sou zombeteiro, nem hostil
Sou despossuído, pois te possuo no silêncio
Te possuo nas noites de chuva
Bebo pouco do teu sangue e alma
Numa dieta para me sentir vivo de você.
Você é minha casa.
Meu lar e dos seus arredores não posso passar
Sou cativo
Um assombramento do amor eterno
Tocando as paredes da sua alma
Vez ou outra sussurrando palavras,
Mexendo na sua mobília
Tocando uma lembrança
Te fazendo sentir minha presença
Meus olhos dentro de ti
Não arrasto correntes
Não choro no escuro
Nem bato palmas no canto do seu ouvido
Mas toco no seu íntimo, abraço teu ego,
Vago pelos corredores do seu inconsciente.
Seu corpo é o lar do meu fantasma.
Te sou.

Te somos.