domingo, 19 de outubro de 2014

O ESCORPIÃO (Anônimo)


Um mestre do Oriente viu quando um escorpião estava se afogando e decidiu tirá-lo da água, mas quando o fez, o escorpião o picou. Pela reação de dor, o mestre o soltou e o animal caiu de novo na água e estava se afogando de novo. O mestre tentou tirá-lo novamente e novamente o animal o picou. Alguém que estava observando se aproximou do mestre e lhe disse: 
— Desculpe-me, mas você é teimoso! Não entende que todas às vezes que tentar tirá-lo da água ele irá picá-lo? 
O mestre respondeu: 
— A natureza do escorpião é picar, e isto não vai mudar a minha, que é ajudar.
 Então, com a ajuda de uma folha o mestre tirou o escorpião da água e salvou sua vida. Não mude sua natureza se alguém te faz algum mal; apenas tome precauções. Alguns perseguem a felicidade, outros a criam. Preocupe-se mais com sua consciência do que com a sua reputação. Porque sua consciência é o que você é, e sua reputação é o que os outros pensam de você. E o que os outros pensam, não é problema nosso... É problema deles.

sábado, 18 de outubro de 2014

FALTA (Edu Reginato)


Sinto sua falta.
Sinto muito.
Sinto todo segundo.
Sinto a perda.
Sinto tanto.
Todo dia,
procurando você
na cama.
Procurando seu
perfume no travesseiro.
Procurando seu reflexo
em espelhos.
Procurando você
em músicas e filmes.
Procurando você em mim,
como uma caixa de música
que quando toco
dança uma bailarina.

AMOR (Edu Reginato)


Amor é tempo.
Amor é relógio.
Amor é uma bola de chiclete
soprada como um beijo.
Amor é sacrifício.
Amor é luz
de uma lamparina na noite.
Amor é um ciclone,
coletivo de escorpião.
Amor é sumo,
lima, limão,
num copo de vodka
com gelo.
Amor é uma palavra, é palavra,
é promessa.
Amor é torre,
estrela, lua e sol.
Amor é saber
perde para encontrar.
Amor é encontrar
e saber perder.
Amor é um álbum
de fotos.
Amor é uma fita vhs
na prateleira.
Amor é um vinil
com uma única música
no lado A e B.
Amor é sal e açúcar.
Amor é desconhecido,
é medo, é desconfiança,
é frio na barriga,
é vento do sul.
Amor é susto.
Amor é voz.
Amor é acordar e dormir.
Amor é cheiro, é gosto.
Amor é luta,
é suor, sangue,
é decepção.
Amor é boa noite e bom dia.
Amor são olhos, boca,
pele, cabelos,
espelhos.
Amor é incompatibilidade,
incoerência.
Amor é ilógico.
Amor é dente-de-leão,
espalhado por suspiro.
Amor é ler no
rosto de quem se ama
as palavras que não
são lidas, são cantadas.
Amor é uma dança.
Amor é a mão no peito
escutando um coração.
Amor é tudo que não se vê.
Amor é a cegueira,
a escada para Hades,
a porta aberta no fundo.
Amor é um filme musical.
Amor é Gene Kelly,
dançando numa chuva de leite.
Amor é dedicação.
Amor é superar o medo da escuridão.
Amor é saber que tem alguém
para ligar o interruptor,
acender uma vela,
um isqueiro.
Amor é verdade,
é segurar a mão
e não largar.
Amor é um dia de cada vez.
Amor é não desistir quando
tudo é fim.
Amor é fim.
Amor é o depois do fim.
Amor é ser comum,
comum é extraordinário
porque o amor é
Imperfeição.
Amor é real, não uma ficção.
Amor é olhar para a mesma
lua estando longe.
Amor é calor, é frio,
é calafrio.
Amor é sede,
água com gás gelada
no meio da noite.
Amor é estragar tudo.
Amor é estrada.
Amor é covardia.
Amor é proteção.
Amor é perdoar.
Amor é sobrecarregar
a memória, o coração
de todas as coisas boas e ruins
de uma vida.
Amor é ser
é estar
é ir a lugar nenhum
é estar em todo lugar
sozinho
ou com a pessoa
amada.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

VENDO OS GATOS MIAREM (Edu Reginato)


Ela rolou do sofá.
Ele pulou de sopetão.
Ela mordeu o pescoço dele.
Ele, numa acrobática fuga,
pulou pelas almofadas acima.
Ela se desinteressou
correndo para se fartar
nos cadarços de um all-star.
Ele seguiu mais adiante,
deslizou pelo piso, saltou
e descobriu uma aranha
num canto.
Ela também queria saber
da aranha
Foi num pinote de um extremo
ao outro.
Ela assustou ele que estava
concentrado na aranha
que aproveitou a distração e fugiu.
Ele mordeu a orelha dela,
desaprovando a brincadeira.
Ela lambeu seu nariz.
Ele perdoou sua indelicadeza,
dando-lhe um banho de carinho.
Eles olharam juntos
para o outro lado da sala.
Aquele bicho pelado,
Observava eles, novamente, 
lá do sofá.
Tiveram pena do bicho
solitário.
Juntos miaram,
juntos foram até ele.
Juntos deram um banho
nos dedos da pata do bicho.
Juntos brincaram com os cabelos do bicho.
Depois deitaram sobre o peito
do bicho pelado,
olhando fixamente
para seus olhos castanhos.
O ronronar duplo
fez o bicho adormecer.
O coração do bicho adormecido
fez ele e ela dormirem também.
Cada um com seus sonhos:
cadarços, aranhas, luz,
mordidas, amor, liberdade,
confiança, almofadas, segurança
e carinho.
Nenhum miado, nenhuma tristeza.
Só um sono bom.
Os três ronronando
em paz
para no dia seguinte buscarem seu cantinho
de sol.

ONDAS (Edu Reginato)

           

Estou de frente para o mar.
Ao lado está meu pai, Oxalá.
- Pai, por que me sinto tão só?
Oxalá bateu seu cajado de estanho perfurando a areia úmida, olhou pra mim com seus olhos de infinito cósmico, arquejou mais ainda suas costas de velho e voltou, novamente, seus olhos para o mar. Vestia um traje branco com detalhes prateados, braceletes de prata adornavam seus pulsos.
- Sabe qual é o maior cemitério desse mundo?
- Não, meu Pai. Qual?
- O mar.
- Por quê?
- O mar é onde repousa todo amor do mundo. Tudo que um dia foi volta para o mar. Todo amor que um dia existiu é levado para o mar. Iemanjá, muito prendada, cuida de cada um deles. Cada olhar, cada lágrima, cada sonho, cada esperança, cada presente ou oferenda, cada súplica, cada mágoa, cada perdão.
- Tudo está lá, Pai?
- Sim, tudo. É um cemitério onde nada está morto, apenas estão adormecidos.
- Lá posso encontrar meu amor?
- Sim, seu amor é uma das contas no infinito colar que adorna o pescoço de Iemanjá. Se for merecedor, o mar lhe trará de volta esse amor.
- E se não for?
Oxalá olhou para mim e sorriu, seus dentes feitos de estrelas do universo.
- Todos são. No fim, todos são merecedores. Conte as ondas, uma delas trará seu amor de volta.

O SONO DE ESMERALDA (Edu Reginato)


           Os gritos arrastavam-se por meses, toda noite, noite inteira. A mãe agonizava de uma moléstia grave. Eram pobres, eram tempos difíceis, longe num roçado, casa untada de argila e telhada com folhas de palmeiras. Um médico esquálido visitava vez ou outra a inválida criatura que já era osso e pele. Os olhos fundos suplicantes por uma cura, tão secos que não vertiam lágrimas.
            A garota, Esmeralda, assistia tudo. Assistia a alma de sua mãe deixar pouco a pouco seu corpo e assim mesmo arrastando seu pobre interior em dor como se não quisesse sair dali e fincasse suas unhas no intestino materno.
            Toda noite, toda noite, os gritos de dor, a fúria pela sua desgraça, os xingamentos e blasfêmias que ela não sabia o que significavam. Toda noite a garota se agarrava ao farrapo que era seu cobertor e rezava baixinho pedindo a Deus que diminuísse o sofrimento da mãe. Pedia a Deus que ela parasse de gritar. Pedia a Deus que ambas pudessem ter uma noite de sono tranquila.
            Muitos visitavam sua mãe: benzedeiras, carolas, curiosos e até um padre do município vizinho. Nada aplacava sua dor, nenhuma reza extirpava o mal de dentro dela.
            Esmeralda sem dormir devido aos gritos da mãe, certa noite viu um homem estranho e negro acocorar-se perto na beira da estrada defronte ao casebre, ele depositou uma vasilha de barro e rodeou-a com velas, ficou por um tempo ali acocorado entoando uma ladainha e, por fim, rabiscou algo com o dedo na terra, levantou-se e foi embora e nunca mais se viu tal figura.
            No dia seguinte a mãe agonizava mais ainda, cuspindo sangue e delirando. Aquele sofrimento estava acabando com o coração de Esmeralda e se não fosse a dedicação contínua de sua avó, ela nem saberia o que fazer naquela situação. Ela correu, correu através do capim alto, despedaçando dentes-de-leão, afugentando moscas e borboletas, querendo que tudo morresse: sol, lua, horizonte, gente, cão, gato, cabra, vaca, tudo. Menos sua mãe. Correu e já sem fôlego se ajoelhou defronte de um oratório perto de uma capela e rezou, rezou apertando as mãos uma na outra até ficarem brancas, até as unhas entrarem na carne, até Deus sentir o cheiro de sua prece e do seu sangue.
            Voltou cabisbaixa, impotente por achar que sua língua não servia para falar com Deus, que sua língua só servia para sentir o gosto das coisas, que sua língua não obtinha o sabor de Deus. Ela não tinha sentidos naquele momento. Não sentia o cheiro, o gosto e não podia tocar Deus, nem ouvi-lo.
            De longe, como uma cabra prenhe, podia escutar os gritos da mãe. E teve medo de voltar. E teve medo de existir e teve medo de nunca mais dormir.
            Naquela noite, tão escura, tão escura que luz de vela se escondia de tanto medo, novamente os gritos ecoavam e Esmeralda se apertava como um feto agarrada ao trapo chorando miúdo pedindo para Deus ajudar sua mãe. Mas além dos gritos escutou algo diferente, um som arrastado, pesado, o ar se tornando abafado, quente e no quarto minúsculo parecia ecoar uma respiração ofegante. O batente, onde algum dia existiria uma porta, se tornou nítido quase iluminado em seu entorno; então apareceu uma silhueta humana, torta, negra e suja de terra. Parecia um homem, mas era feito de barro e madeira, suas feições eram deformadas, seu corpo antinatural, fedia estrume e terra úmida e arrastava um enorme pênis que deixava um rastro no chão de terra batida. Esmeralda viu a aparição adentrar no seu quarto se aproximando cada vez mais dela, enquanto isso os gritos de agonia de sua mãe soavam cada vez mais altos, mais desesperados.
            Esmeralda fechou os olhos, lágrimas de medo rolando pelo rosto trigueiro. O som arrastado muito perto até sentir o vapor quente do hálito nodoso da coisa no seu rosto. Escutou uma voz cansada e oca dizer “Elegbara” e sentiu os lábios terrosos da criatura tocarem sua testa com um beijo terno e quente. Depois a escuridão tomou conta de sua mente e ela emergiu num lago cheio de crianças nuas que brincavam com bonecos feitos de palha. O sol estava a pino, céu limpo e azul e ela sorriu como há muito não sorria e correu e brincou e plantou bananeiras e deu cambalhotas e quando cansou deitou sobre a sombra de uma árvore e dormiu. Quando acordou estava tão descansada, tão viva, tão feliz na sua caminha feita de palha ainda agarrada no trapo que era seu cobertor. Sua avó entrou no quarto, estava pálida e cansada, sentou na beira da cama e falou que sua pobre mãe havia morrido naquela manhã e que naquela noite ela havia gritado e sofrido dores como nunca.
Esmeralda foi poupada, havia dormido serena e sonhado com um lugar que não está tão longe dali e que provavelmente, um dia, ela encontrará sua mãe descansando naquela sombra de árvore e ambas poderão, juntas, dormirem tranquilas.

ELA (Edu Reginato)


Olhou para o descampado, infinito verde, flores de todos os tipos, chamava de Margaridas as que mais gostava. Acocorou-se e urinou, um alívio quente escorrendo pelos tornozelos. Sorriu quando um pássaro passou baixinho, não sabia que pássaro era aquele, nem daria nome nem nada, voou rápido e se distanciou sem dar muita conversa. Tocava tudo. Cada textura era uma descoberta e cada cor um esplendor que quase a cegava. Brincava com leões que enroscavam enormes patas em seus longos cabelos avermelhados, montava em cavalos brancos e corria veloz por vales e florestas, bebia mel com ursos e pedia desculpas às abelhas. Conversava com lêmures e brigava com tamanduás pedindo que poupassem um pouco as pobres formigas. Tentava chegar ao fim do horizonte, mas nunca havia fim. Dormia em árvores abraçada com bichos-preguiça ou um gorila com frio. Sorvia água acumulada em rosas, comia e compartilhava abacates com ratos selvagens. Dava sustos em rinocerontes e ria a beça com as hienas. Tocava flores como se toca o ar, respirava o sol como se respira flores, deitava no chão e a grama lhe abraçava, as flores lhe cobriam de pólen, as abelhas lhe ninavam.
            Vez ou outra visitava o lugar de seu nascimento, lembrava ver o mundo pela primeira vez através da água. Nascera da espuma de uma cachoeira, quando um raio de sol ousou refletir sua luz diante da beleza daquela água cristalina. Nasceu nua e nua ficou. Permaneceu flutuando nas águas do riacho com medo daquilo que chamou de Terra, daquilo que chamou de Árvores, daquilo que chamou de Noite e Dia e daqueles seres estranhos, curiosos, que vinham até a beira do riacho fustigar ou matar a sede. Então, tomou coragem e tocou a terra e a terra lhe deu boas-vindas. Quando voltava para o riacho, dele se nutria, suas águas invadiam seu corpo e penetravam em suas veias. Ela era carne, músculos e ossos, mas seu sangue era água.
            Tinha tudo que precisava e nada temia; bem, sim, temia só duas coisas: a água que vinha de cima e, também, uma árvore velha e torta, solitária, rodeada de espinheiros grossos e afiados, que dava frutos estranhos avermelhados. De resto, tudo era bom e lindo, acolhedor e amigável. E por muito tempo foi assim até sentir o vento, mas era um vento diferente, um vento que não vinha de fora, vinha de dentro.
            O vento foi aumentando, preenchendo seu corpo, dando-lhe calafrios, dando-lhe medo. E por fim nomeou aquilo como Tristeza e não sabia de onde vinha e para onde ia, só onde estava. Dentro, ali dentro dela. E um dia essa tristeza aumentou tanto, zunindo como uma tempestade que chega forte e Ela caiu por terra e dos seus olhos a tristeza saiu. A tristeza era feita de água salgada e jorrava encharcando a terra, transformando-a em lama, uma lama espessa e borbulhante que gemia baixinho. Ela fugiu assustada.
            Menos assustada, não sentia mais o vento de dentro e voltou curiosa para o local onde havia desaguado sua tristeza. A poça de lama estava ali e dois rastros saiam dela e seguiam em direção da floresta. Ela seguiu os rastros e encontrou dois seres semelhantes a ela. Tinham pêlos, coisa que ela não tinha; cabelos curtos e escuros; possuíam mamas menores que a dela e um pedaço de carne entre as coxas que ela também não possuía. Estavam sujos de barro e Ela arrastou um por um até a beira de um riacho e os banhou. Depois de limpos descobriu que eram de cores diferentes, um tinha pele clara que nem a dela, outro tinha a pele escura como a noite. Resolveu dar nomes àqueles semelhantes: o branco chamaria de Adão e o negro Oxumarê. Eles estavam vivos, apenas dormiam cansados. Ela cobriu-os com folhas de palmeiras, colheu frutas e água deixando ao lado deles, então subiu no alto de uma árvore e ficou observando, atenciosa, na espera que despertassem.
            Os Semelhantes acordaram quase ao mesmo tempo, estavam assustados. Entendeu que eles sentiam o mesmo que ela quando nasceu. Desceu da árvore e tentou ser amistosa e os Semelhantes ficaram mais apavorados, não fugiram, pois ainda não sabiam andar. Alimentou cada um porque não sabiam o que era comida nem como comer. Ensinou-os a andar. Ensinou o nome de cada coisa e apresentou cada flor, cada árvore, cada animal. Ela se afeiçoou a Oxumarê, o mais frágil, o mais solitário. Oxumarê, muitas vezes, se separava do grupo e subia num monte, olhando por muito tempo para o céu e para aquilo que chamavam Nuvens. Ela gostava de olhar o silêncio de Oxumarê, nomeou aquilo que sentia como Amor. E amor sentia Adão por Ela, mas não era correspondido e Adão passou a sentir o vento de dentro crescer.
Quando chovia Ela tinha medo, sentia-se confusa porque era feita de água, mas achava assustador a água vir de cima e não de baixo. Além disso, aquela água de cima era acompanhada de um brilho forte e muito barulho. Oxumarê, protetor, prometeu que um dia não deixaria a água de cima cair para não assustá-la mais.
Adão era forte, esguio e um Semelhante mais bonito que Oxumarê. Olhava-se no reflexo da água parada e não entendia porque Ela não lhe amava. Toda vez que pensava nisso o vento de dentro aumentava, mais e mais.
Um dia Adão deu por falta de seus Semelhantes e passou a buscá-los na floresta. Encontrou-os numa clareira, estavam juntos, um no outro, o pedaço de carne de Oxumarê penetrando no corpo dela tornando-os um só, Ela sorria e tocava o rosto dele como tocava as flores, como tocava o ar.
Adão fugiu. O vento de dentro levou-o para longe. O vento de dentro era tempestade. Sentia dor, sentia-se só. E a tempestade lhe fugiu pela boca num grito, ele tombou na terra rosnando e matou uma perdiz com os dentes. Queria provar que era maior e mais forte que Oxumarê, queria provar que não era apenas um Semelhante, queria provar que era, aquilo que se nomeou, um Homem.
Adão sabia que Ela tinha medo da água de cima e da árvore torta. Oxumarê prometeu parar com a água de cima e não conseguiu; no entanto, Adão, o homem, iria atravessar o espinheiro e trazer um fruto da árvore torta para provar sua coragem e seu amor por Ela. E assim, se esgueirou pelo espinheiro, sua pele sendo rasgada, seu belo corpo e rosto sendo desfigurados. Exausto e ensanguentado chegou à árvore torta, ficou desesperado, pois não avistava nenhum fruto. Novamente atravessou o espinheiro e mais destruído ficou seu corpo e seu rosto. Toda a Natureza daquele lugar se assustou e fugiu quando avistou o homem em carne viva.
Sentia frio, a vida lhe deixando. Trazia as mão vazias, o coração cheio de tristeza e frustração. Olhou adiante uma grande árvore com frutos. Cambaleou até a árvore e colheu um fruto pintando-o de vermelho com o próprio sangue.
Ela encontrou Adão, ele estava morrendo. Ela se desesperou, jamais sentira aquilo. Jamais havia visto o líquido vermelho que saia do corpo do seu Semelhante. O corpo e rosto do homem eram nacos de carne viva. Adão havia se tornado algo novo naquela Natureza. Ele ergueu o fruto e disse que o havia colhido da árvore torta e pediu que o mordesse e Ela, cheia de compaixão, mordeu o fruto do sangue do Homem e Adão fez o mesmo.
Oxumarê gritou pelo nome dos seus Semelhantes e não obteve nenhuma resposta. Procurou-os por todos os cantos: ravinas, clareiras, cavernas, árvores, riachos. Por muito tempo vagou por aquela Natureza a procura de seu amor. Não encontrou nunca nem Ela nem Adão. Oxumarê se tornou triste, mais sozinho que nunca. Sua dor era intensa, não sentia fome, não sentia sede, passado pouco tempo não conseguia mais andar e se arrastava pelo chão e sua tristeza cresceu tanto que, em certo momento, seu corpo não mais a suportou e ele expeliu de sua boca aquilo que se tornara e nomeou-se, Serpente. Uma serpente, pois era assim que Oxumarê se sentia como o mais maldito entre todos os animais e bestas da terra, o mais temido e o mais solitário.
No entanto, seu amor por Ela nunca cessou e com o tempo Oxumarê, a Serpente, descobriu que em certos momentos específicos podia modificar sua forma. E sempre que chovia a serpente se transformava, pois não tinha simpatia pela chuva. Seu corpo físico se desvanecia e ficava invisível como o ar e Oxumarê se espalhava como vento espantando as nuvens negras carregadas de chuva e fazia com que desaparecessem, dando lugar à sua outra forma, um arco-íris.
E até hoje é assim, em tempos chuvosos Oxumarê deixa seu corpo de serpente e transforma-se em arco-íris, espantando a chuva em homenagem ao seu amor e na esperança que Ela o aviste e volte em sua direção.