terça-feira, 4 de novembro de 2014

DAISIES NEVER MORE (Edu Reginato)


Tulipas são sérias,
altivas.
Rosas somente azuis,
tatuadas.
Azaléas estão em
pés de moças delicadas.
Girassóis foram
para a Rússia
e mandam lembranças.
Copos de leite
entornaram.
Jasmins, jaz mim,
jaz fui, jaz fomos.
Alecrim ficou dourado
e foi semeado.
Begônias
sentem pudor
pois perderam
seus brincos-de-princesas
numa floresta.
onde beladonas mataram
jovens moças.
E cravos perderam
suas rosas, coitados.
Dálias morreram
tragicamente
em filmes noir
E lírios
são seus olhos.
Violetas floriam
no rosto de Liz Taylor.
Saudades estão sempre-vivas,
mimosas cheias de malmequer,
lilás no seu rubor
magnólias no seu humor,
mas sempre petúnias,
perpétuas,
prímulas.
Nunca margaridas,
essas não encontro mais.
Essas são parte de um ramalhete
que nunca poderei
entregar.

ELE ERA (Edu Reginato)


Ele era o único garoto que tinha uma bicicleta no bairro.
Ele revezava com amigos, cada um numa volta de quarteirão.
Daí na sua vez uma moto o atropelou.
Última lembrança foi o amigo Rodrigo gritando socorro.
Sua cabeça bateu na sarjeta e abriu o crânio.
Nunca mais foi o mesmo.
Se tornou impulsivo, triste,
esquecido ou muito alegre, explosivo,
chulo às vezes, mas educado com certeza.
A batida mudou seu jeito de ver o mundo,
tudo era rápido, mais rápido do que era antes.
Ele guardava informações inúteis
que lhe agradavam e descartava
aquilo que não gostava.
Não lembrava nomes, datas ou números
em sonhos.
Lembrava as teorias de Copérnico
ou trechos de Madame Bovary
mas não lembrava
o que era um sujeito composto.
Desenhava bem, tinha talento
com mecânica, lia um livro por dia,
assistia vinte filmes por semana.
Foi expulso de escolas, vivia em diretorias.
Trocava de casa, de escola, de amigos, de cidade
todo ano.
Vivia vendo o mundo ir
embora deitado
no bagageiro de uma Belina.
Foi deixado aos cuidados dos avós.
Seu melhor amigo, seu mestre,
seu avô cuidou dele sempre.
Aquele velho calvo de repente
gritava de dor toda noite.
O garoto da bicicleta não conseguia dormir,
pedindo para Deus poupar
seu velho amigo.
Ele partiu
e o garoto nunca mais dormiu direito.
O garoto perdeu o velho
pruma doença cruel
que levou também a sanidade
de sua mãe.
O garoto fugiu, precisava de dinheiro,
fez más companhias,
manchou sua alma
de pesadelos e culpas
que diminuíram ainda mais
o seu sono.
Sempre viveu do caos,
passando por médicos
para curar as sequelas de seu acidente.
Davam muitos nomes: distimia, bipolaridade,
Traumatismo crânio-encefálico, ora vejam.
O garoto só tinha um nome para aquilo:
tristeza.
Achava que o mundo
olhava para ele de viés.
Se perguntava qual o sentido
de existir se ele era quebrado.
Ninguém gosta de coisas quebradas,
de coisas com defeitos.
Sempre algo quebrava nele,
haviam cortes, rachaduras,
sempre cicatrizava, mas doía.
Tinha medo de decepcionar pessoas,
tinha medo dos seus defeitos
de menino quebrado.
Se apegava mais a estranhos
do que conhecidos, pois assim
não estreitava laços
que poderiam ser rompidos.
Mesmo assim, fez amigos
para toda vida. Eram poucos,
porém muitos.
Lutava todo dia
para organizar seus pensamentos,
sua rotina.
Queria ser normal.
Ele era algo estranho,
Sua mãe lhe dizia:
Porque você gosta de estrelas e poesia
E não de medicina ou advocacia?
Cresceu por conta própria
vagando, preenchendo buracos,
procurando um colchão,
uma identidade.
Queria acender todos
os fósforos de uma vez
para que tivesse paz
na luz quente da esperança.
Nunca se apaixonou,
tinha medo.
Mais quebrado ficou quando adulto.
Os males do avô e da mãe
assombraram seu corpo.
Ele era errante,
por fim cansou queria
parar.
Ele encontrou pouso, poesia, amor.
Dormiu bem embalado por sono,
ressonar.
Se achou feliz, em paz.
Daí quebrou-se
quando acreditava
que tudo era para sempre.
No entanto, para sempre
são só palavras.
Além de quebrado,
lhe chamaram de doença.
Ele era o nome e sobrenome
de uma mazela.
Nem pode se defender,
nem pode cicatrizar
a ferida aberta a sangrar 
da sua perna a faltar.
Ele era um garoto da bicicleta
que quebrou a cabeça numa sarjeta
quando criança.
Ele era um garoto sem bicicleta
que quebrou o coração
quando adulto.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

NOVEMBRO (Edu Reginato)


Cheirava mato molhado
um canto do céu
negro prenhe
de chuva.
Um perfume de nuvem,
odor de cumulus
odor algodoado
de ar almiscarado.
Tinha brilho,
brincos elétricos
de deusas vaidosas.
Barítonos gorjeavam
uma corte para essas
etéreas donzelas.
Súbito sopro
de vento carrega
as folhas que cobriam
a pureza das árvores.
Súbito um cão vadio
com rabo entre as pernas
procura um portão aberto.
Súbito velhas senhoras
fecham janelas.
Súbito todo pranto
do céu cai
serpenteando líquido
por telhas telhados
ruas buracos.
Rios de terra vermelha
formam-se
nos pés descalços de uma criança
que correm
sobre lágrimas.
Um pranto da chuva que nasce.
Rebento do choque de amor entre
nuvens.
Um descarrego de vida fria e quente.
Líquido do útero universo.
Líquido banhando
nós,
fagulhas de Deus,
que semeiam
a terra.

domingo, 2 de novembro de 2014

PERDÃO DESENCONTRADO (Edu Reginato)


Não tem ouvidos
para se escutar.
Não tem boca para perdoar.
Não tem braços para abraçar.
Não tem beijo para soprar.
Não tem olhos para chorar.
Não tem perdão sem corpo presente.
Ausente fica,
ausente vai
um perdão oco,
sem remetente,
sem chance,
sem volta.
Perdoe-me,
mesmo que nunca
ouça
nunca
leia
nunca
fale.
Perdoe
esse coração que 
sente
coração torto
mal batido
difamado
tão doído
tão solado
hoje
pequeno
antes tão
forte
tão
inflado.
Perdoe
esse anjo caído.
Perdoe pois
faltei
contigo.
E daria tudo
pelo seu
abrigo.

PARA QUEM DEIXOU SAUDADE (Edu Reginato)


Hoje não tenho nenhuma tristeza,
hoje lembro das alegrias
que tanta gente nos deixou.
Lembro de carinho,
lembro de afeto.
Lembro da poesia
da vida de todos
que se foram,
mas ficam aqui
no coração das pessoas.
Não há morte,
há vida
e saudade é
um jeito carinhoso
e, por vezes, dolorido
de dizer
continuo te amando.
Sou vocês,
somos nós.
A vida é curta.
Todos que amamos
e se foram
fazem parte do nosso
curto
maravilhoso
existir.
Festejo a felicidade
de ser todos,
pois ninguém partiu.
Todos ficam
aqui dentro de
Nós.
Nós somos eles.
Eles um dia seremos nós.

OLHO QUE SOPRA (Edu Reginato)


Olho que sopra
teu cisco da boca.
Olho que vê
tua passagem
de ida indo
embora.
Olho que manja
de um desaforo
lá fora.
Olho que salta
da janela para
longe
num horizonte
tão longo
que vista não
alcança.
Olho de perna curta.
Olho perneta.
Olho velho.
Olho cansado
de tanta espera.
Olho que não
mais te vê, te perde
Olho que tem saudade e
procura pálpebra
como abrigo e
dorme
sabendo que
sem olhar
não há sonho.
Sem olhar
não há medo.
Sem olhar
apenas
cheiro e gosto.
Sem olhar
não mais lembranças.
Sem olhar não
há existir.
Sem olhar
não há reflexo,
não há alma.
Apenas lençóis
cobrindo
espelhos.

38 ANOS, ONTEM (Edu Reginato)


Ontem faltou teu
abraço,
amigo querido.
Ontem faltou
teu colo
e uma história
de arrepio.
Ontem faltou teu cheiro,
tua touca de lâ,
teu quarto
tua alma
terçã.
Ontem passei
sem festa
sem susto
sem surpresa.
Ontem passei
por supermercados,
pasta de dentes
trilhos de trem
Hemmer,
faltou ar.
Ontem vi uma coruja
procurando um lugar
na calçada
e ficou a me
olhar.
Ontem encontrei Carlos,
pedindo 5 reais prum salgado
capengava de uma perna
queria conversar
contou história
de outras primaveras
antes dos vícios
a levar.
Levou 5 reais
meu presente de
aniversário para
mim:
Um sorriso e estômago
quente
para a noite de Carlos
que trocou por sua
história triste.
Querido amigo,
que falta faz sentir
tua barba grisalha por fazer,
o tic-tac do relógio de bolso
vendo teu tempo passar,
tua valise,
teu chapéu,
tua gravata,
teu sopro.
Vi você num sonho
noites atrás
estava tão longe
cuidando de um jardim
na tua fazenda.
Não aguentei a emoção
e acordei sem te dizer bom dia.
Queria tua voz rouca e grave
queria tua proteção
ser teu livro, teu remédio
tua salvação.
Queria escutar ópera
como antes em 78 rotações,
cantando pulmões.
Queria acreditar
que futuro é tudo
que temos além de uns
trocados no bolso.
Queria devolver teu canivete,
tua lupa
tua bússola.
Queria dizer que de nada serviu.
Não cortei desafios.
Não descobri mistérios.
Perdi meu rumo.
Queria só desenhar mais
um quadro pra ti.
Ler uma história que escrevi.
Falar que na noite mais
escura de meus 38 anos
malnascidos
você foi a luz
que peguei
para me acalentar.
Você foi o cobertor
que usei para me esquentar.
Você foi a prece que orei
para me lembrar.
Você me disse
que tudo daria certo.
Eu acreditei.
Você viajou pra longe
e me deixou
sem explicação
sobre o que de tudo
daria certo.
Você me ensinou a ver
o amor nos olhos de uma
moça.
Você me ensinou
que Capitão Blood e Sargento York
eram heróis de faz-de-conta
e que o cinema era um lugar
de sonhos inalcançáveis.
Você me ensinou a ler pessoas,
a ouví-las e retratá-las
na sua simplicidade
e esplendor.
Foi contigo que
escrevi o meu primeiro
final triste.
Nossa história interrompida.
E de histórias belas
interrompidas fiz a vida.
E de fome e sede e medo
e futuros incertos.
Porque faltou esse último
gesto que se repete
sempre.
Faltou o abraço.
Faltou o fica comigo.
Faltou o não me abandone.
E eu fiquei sozinho.
E sozinho te procuro
nessa noite no céu,
e sozinho busco
em você meu presente
nessa data sem festa
que passou
que marcou
que ficou
que sou eu,
mais ninguém.
Só você sabia
quem eu era,
Só você poderia
saber quem
eu
sou.
Só você poderia
dizer que
meus 38 anos
valeram a pena
pois pena
eu tenho de perder
o amor.
Só você veria
meu coração
e reescreveria
eu de novo:
daria um chiclete
um gibi
uma espingarda de chumbinho
um canivete
uma bússola
uma lupa
e falaria: viva tua aventura!
E ninguém acreditou
em mim
porque
sou neto do meu avô.
Vivi todas aventuras do mundo,
fui mocinho, fui bandido,
conheci damas e cavalheiros,
assombrações e demônios,
coisas belas e sujas,
amor e desilusão.
Vi tudo isso por você.
Vivi tudo isso por você.
Ontem pouco antes de ser hoje,
pedi que você
olhasse por mim
e protegesse minhas verdades,
protegesse quem eu sou.
Sozinho, 
abracei o vazio,
naquela noite sem festa,
contigo.