segunda-feira, 2 de novembro de 2009

AYESHA SERIA TEU NOME (Edu Reginato)

Quando me perdi na vida
louco lelé perdido por muié
foi você que resgatou
foi você quem me ajudou
a ver do que se trata tudo
e como tudo tá
escrito antes do nada
quando me perdi
quase perdi seu belo rosto
e seu sorriso
e seu cabelo cobre brilhoso
e suas palavras desconsonantes
quase perdi meus três amores
nem te conhecia nem te sentia
nem te amava e já te perdia
ô criança complicada
antes de ser parida
que me coloca nos eixos
e me faz pensar crescer
me faz ser responsável
e olhar pro diabo do futuro
que sempre me deixou arrupiado.
Me bola, me sinto fastiado
de pensar o quanto errei por
esse mundo
o quanto bati a cabeça no muro
e quanto muro bateu na minha cabeça
para tentar me manter como sou
mas chegou aquele momento
em que me perdi como num
bosque de desenho da Disney
me perdi girando e correndo
para que não rancassem meu coração.
Foi imaginar teu sorriso, foi imaginar tua beleza
foi pensar no teu nome que me fez
parar e olhar em volta
e ver que o tempo e a vida são um copo d'água.
Ayesha, esse seria teu nome
a rainha do livro Ella
a mulher imortal que procura
a reencarnação do seu grande Amor.
Ayesha é vida e de vida bebi nos seus olhos quando nasceu.
Eu que sou o mais corrupto dos homens, o mais desalmado,
o mais sem-palavras-para-descrever estava envergonhado
diante de sua beleza, de sua pureza.
Você era tão bela quanto tua mãe e eu não podia
deixar de amar tanto uma como outra.
Agora compreendo um pouco as mulheres
criando uma desde pequena
é como ter o esquema de montagem de uma máquina
de fissão nuclear e para montá-la apenas usar um martelo
e um tesoura de unha. Quer dizer jamais vou entendê-la
mas sempre vou tentar decifrá-la.
É difícil compreender quando você é tomado
da sensação de desbaratinamento
que o amor causa.
Tem o amor pela mulher da sua vida
e tem o amor absurdo pela filha da sua vida
a criatura mais misteriosa e deslumbrante
que a natureza projetou.
Ayesha seria teu nome mas no dialeto
africano pode ser Aisha e preferimos assim,
para que nenhum muleque marrento do futuro
rimasse com ameixa, apesar de adorar essa fruta...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

INFINITIVO (Edu Reginato)

Queria escrever um livro sobre o maior amor do mundo
O amor que se come pelo proprio rabo o amor infinito
Queria ser menos confuso
Queria falar a verdade
Queria não sofrer por machucar um coração
Queria ter dito aquilo que ela queria escutar
Queria dormir sem frio no pé
Queria seu pé quente
Queria um filho contigo
Queria comer seu brigadeiro
Queria brigadeiro cobertor e sessão da tarde
Queria ter crédito
Queria seu perdão
Queria seu amor embalado por Zeca Baleiro
Queria Paris, Amsterdã, Estocolmo, Belém do Pará
Queria um pesto, um copo de saquê, veneno
Queria Versace, Dolce & Gabbana, Hering
Queria ver você de camisola de seda mais uma vez
Queria ser eu aquele da foto
Queria ser o cara mais famoso dos últimos quinze minutos
Queria dar nó em gravata
Queria fazer um filme
Queria que Bogart ficasse com a gata no final
Queria viver no filme La Dolce Vita
Queria ser neto da sua avó
Queria ser filho da sua mãe
Queria ser o homem da sua vida por um minuto
Por um piscar de olhos por uma sinapse
Queria cozinhar couve-flor para você
Queria te fazer dormir nos meus braços
Queria te despir e te amar
Queria tatuar sua beleza no meu peito
Queria morar na lua contigo
Queria que a última imagem fosse a tua
Queria um pouco de amor e uma fanta uva.
Queria esquecer que te conheci
Esquecer que não esqueço de você
Esquecer que você me odeia
Queria fazer tudo de novo
Amar, errar e perder você
Porque, assim, sempre lembraria
O quanto você faz falta para mim.

ELECTROLUX LIVE SYSTEM (Edu Reginato)

A geladeira continha restos de verduras
bolor nas suas paredes
trincos nas suas gavetas
algumas prateleiras enferrujadas
ninhos de baratinhas dentro da borracha isolante
o motor sem gás
nada dentro dela ficaria conservado
ela era uma geradora de podridão
e foi lá que Dorival foi morar.
Ela estava abandonada num terreno baldio,
no meio do mato crescido
sua cor de terra na cor do mato
e Dorival se arrastou até ali por causa
de sua ferida na perna.
Dorival fedia como nenhum ser humano
poderia feder.
Tudo ao seu redor se contorcia ou enjoava
seu fedor grudava nas coisas
e agora fedia muito mais pela ferida pustulenta na perna
parecia uma orquídea de pus
e a pele já apetrejava
a dor tomava todo seu corpo
e o envenenamento por causa da inflamação
deixava Dorival delirante
numa das crises se contorceu de dor no chão
mordeu pedras e lambeu terra
se arrastou até um terreno abandonado
porque acreditava no seu fim
e preferia ser comido por cães vadios
do que ser enterrado como indigente
daí encontrou a geladeira abandonada
uma Electrolux cor terra
Dorival abriu a geladeira arrancou
as gavetas e prateleiras
se apertou no seu interior e a fechou.
Durante dias
permaneceu no interior da Electrolux
sofrendo delírios
em que o diabo lhe engolia as entranhas
e mastigava sua perna.
No entanto o medo e dor
foram se dissipando
e Dorival começou a se sentir
aquecido e protegido
a geladeira tornou-se um útero
um invólucro que o protregia herméticamente
do mundo exterior
sua perna podre começou a regenerar
as veias cheias de sangue negro começaram a azular
a pústula secou e cicatrizou
os vermes em sua barriga morreram ou
foram expelidos pelo nariz e boca
os músculos e ossos desatrofiaram
a catarata regrediu, os dentes nasceram
a sujeira secou e se descascou
os pêlos cairam
a cirrose regrediu
o pulmão preto ficou vermelho
plenamente inflado
e seu coração ficou bom e
irrigou muito sangue para seu
corpo reconstituído.
Pela primeira vez em muitos anos
Dorival dormia profundamente tranquilo
sereno enquanto seu corpo se fortalecia
e regenerava cada dia rejuvenescendo anos.
No entanto Dorival morreu quase imediatamente
quando abriram a geladeira e encontraram
seu pequeno corpo do tamanho de um punho
submerso em líquido amniótico.
Dorival fora interrompido, abortado e, novamente,
impedido de encontrar sua felicidade.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A BAILARINA E O PALHAÇO (Edu Reginato)

Dedico esse conto à memória de minha querida amiga Flávia. Vou sentir muita saudade da nossa linda Bailarina.

A Bailarina e o Palhaço
Estou com meus trinta e poucos anos e parei para refletir se havia adquirido alguma experiência ou aprendido alguma lição que a Vida e a Natureza nas suas infinitas sabedorias tivessem tido paciência de me ensinar.
Reavaliei meu caráter, minhas ações, meus amores, mas fiquei achando que havia feito pouco, que talvez por causa de meus medos e inseguranças, houvesse deixado de viver.
Mas, o que era realmente "viver" pois essa expressão pode ser tanto biológica como espiritual. Qual seria o real medidor, se houver um, de uma vida plena?
Será que há uma pontuação das coisas que fizemos, tipo escalar o Aconcágua valeria 7000 pontos, um raio cair na cabeça 2 vezes valeria 10000 pontos, ver o rosto do seu filho ao nascer valeria 400000 pontos, beijar a menina feia da 3ª série valeria 200 pontos.
Será que poderíamos avaliar se nossas vidas foram plenas ou medíocres?
Pensava nessa pontuação da vida quando recebi a notícia que a Bailarina havia morrido. Essa notícia me derrubou. Meu Deus! Bailarinas não podem morrer tão quanto fadas não podem morrer!!!
E essa Bailarina era única e especial. Ela não era uma dessas do Bolshoi, do Municipal ou da Deborah Colker, essa era livre por si só e por isso se assemelhava tanto com uma fada.
Ela adorava flores e pedras mágicas e o cheiro doce de bálsamo e incenso. Ela dançava em silêncio ou sob o barulho melodioso dos cânticos árabes. Ela fez chorar de inveja a filha do Xá, tamanha sua beleza e leveza. Ela fez corar a rainha Ayesha e todo seu séquito de 30000 homens que ajoelharam diante de sua formosura.
Ela fazia rir e chorar. E sua alegria era algo tão tangível que se podia retirar um filete de alegria e passá-la no pão.
Seus pais e irmãos eram as pessoas mais realizadas, as mais felizes e sempre antes de dormir e ao acordar levantavam as mãos aos céus agradecendo à Alá, Jeovah, Deus, Buda e à todos que são um só pela sua filha, a Bailarina.
No entanto, a Bailarina sentia, às vezes, algo que tocava no seu peito, algo que vez doía, vez não. Preocupada, ela consultou médicos, xamãs, rabis, vizires e oráculos. Todos diziam a mesma coisa, que ela precisava de um amor e que aquela dorzinha no peito era a metade de seu coração pulsando, pedindo pela outra metade.
Ela comunicou sobre o diagnóstico dos sábios para seus pais e irmãos que ficaram sentidos pela dor do seu meio coração.
Porém, a Bailarina continuou a dançar por palácios e festivais encantando desde mendigos à sultões e, aos poucos, foi se acostumando com a dor do seu meio coração.
Um dia correram de boca-em-boca as novidades sobre a chegada de um circo mambembe que vinha de terras distantes. Todos da cidade, inclusive a Bailarina e sua família, foram conferir o espetáculo que ocorreria na praça principal.
Um grande palco fora construído com tapumes de madeira, sedas e tapetes orientais multicoloridos. Dois grandes incensários ficavam nas extremidades do palco e luzes de lampião iluminavam o pano principal vermelho da boca do palco criando uma atmosfera mágica de luz, fumaça, cores e odores.
A expectativa era grande e todos levaram um susto quando uma grande porção de pólvora estourou num brilho forte e o pano se abriu dali saindo vários palhaços dando cambalhotas e outros tocando flautas, cítaras e tambores.
A beleza das luzes, cheiros, acrobacias e melodias encantaram a Bailarina que se dispôs a dançar acompanhando a magia do espetáculo, mas de repente um som diferente, único entre os vários sons, tomou de surpresa a praça e bateu forte no seu meio coraçãozinho.
Era um som rouco e aveludado. Era uma música forte e quente vinda de um instrumento longo e curvo banhado a ouro. Quem tocava era um palhaço de grossas sombrancelhas, usando uma boina, largas calças verdes, um lindo casaco vermelho e enormes sapatos coloridos.
Aquele palhaço tocando com tanto carinho o estranho instrumento fez a Bailarina chorar e chorar e rodopiar e rodopiar tornando o mundo a sua volta úmido e borrado. Num instante ela estava em volta do Palhaço, ela completando a música dele e ele completando a dança dela e foi dessa forma que se apaixonaram. E assim que se casaram com ele tocando o dourado instrumento e a Bailarina dançando e cantando suavemente
Naquela mesma noite do casamento, quando estavam sós, o palhaço desabotoou seu casaco de gala vermelho e colocou a mão sob a camisa de seda na altura do peito, fazendo um esforço danado, retirou algo de dentro do seu corpo e mostrou para a Bailarina que recebeu, emocionada, a metade do seu coração que faltava.
O Palhaço e a Bailarina viveram felizes juntos o tempo que lhes foi reservado, foi pouco, infelizmente, mas foi pleno de amor, amizade e sinceridade. Ambos se completavam. Ambos riam um do outro e se amavam. Ela dançando e ele musicando sua beleza.
Certo dia a Bailarina adoeceu e o Palhaço sofreu muito, mas fazia de tudo para ser forte e se manter palhaço, no entanto em muitos momentos teve que ser homem e esconder o seu nariz vermelho. Ele lutou, rezou, chorou, riu e meditou sobre aquele revés do destino.
Aquele homem palhaço ficou do lado da bailarina sempre lhe dando carinho e amor e continuou se apresentando e distribuindo alegria ao mundo e se preparando para o dia especial que se apresentaria aos três grandes Reis Palhaços, a maior honra que um palhaço podia ter.
Então o dia chegou e o Palhaço partiu para o Reino da Saúde e Alegria onde existia um dos mais lindos castelos do mundo. Adentrando no castelo, ele foi levado à um imenso auditório rodeado por arquibancadas cheias de palhaços de todos os tipos e tamanhos. No centro, sentaram, em tronos feitos de jujubas, os dois Reis Palhaços e a Rainha Palhaça. O nosso bom Palhaço dedicou seu trabalho à sua amada Bailarina e desse amor ele se nutriu e com alegria transmitiu toda sua mensagem e fez rir e chorar toda a palhaçada.
Terminada a apresentação os Reis Palhaços se retiraram para um conselho. Todos torciam para que o humilde palhaço se tornasse um Senhor Palhaço, um mestre, e esperavam ansiosos a decisão do conselho. Minutos se passaram e os Reis retornaram dando a benção mágica de confete e serpentina tornando-o Senhor Palhaço, um mestre que ensinará aos homens como se tornarem livres e felizes. E foi uma festa danada toda aquela palhaçada cantando e se explodindo de felicidade.
Mas, o Senhor Palhaço não teve tempo nem prazer de comemorar, voltou o mais rápido que pôde para junto de sua adoecida Bailarina que estava apenas esperando que seu Palhaço tivesse sucesso para ficar tranquila e plenamente feliz sendo amada pela sua família e pelo homem ou palhaço da sua vida.
Eles ficaram juntos mais alguns dias e numa calma madrugada uma bela e iluminada Nossa Senhora ergueu a Bailarina nos braços e as duas voaram, felizes, para junto de Deus.

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Admirável público, senhores, senhoras e crianças, não fiquem tristes!!! Não é por que uma história de amor não termina bem que devemos acreditar que não houve final feliz. Houve sim senhor!!!
Pois, nada é mais feliz do que amar e ser amado. E o Senhor Palhaço, meus caros, continuará espalhando alegria sempre satisfeito porque a outra metade de seu coração estará dançando sempre ali, entre o mar e o pôr do sol, nas nuvens de chuva e nos arco-íris, no canto dos pássaros ou, simplesmente, nos seus sonhos mais felizes.

********

Quanto a mim, deixei de pensar se vivi plenamente meus trinta anos, pois se tive a imensa alegria de ser amigo da Bailarina dessa história e de seu galante Senhor Palhaço, se tive a sorte de encontrar um amor que me entendesse, se tive a alegria de ver meus filhos nascerem ou de rir e jogar conversa fora com os amigos ou ver o nascer e o pôr do sol, ou sentir a chuva e o cheiro de grama molhada, isso é ter vivido feliz.

video

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

RIVOTRIL 2mg (Edu Reginato)



Acho que sou insuportável
Talvez intolerante
Ainda mais irracível
Egoísta
Louco
Tosco
Inconveniente
Grosseiro
Cínico
Falso
Mentiroso
Aluado
É isso que escuto das mulheres que
Amei
E que me
Amaram.
Deixei toda minha vergonha de lado
Pois para o censo geral sou um sem vergonha.
Não importa o quanto doei de mim só fiz doer nos outros.
Machuquei tantos corações que perdi a conta e só lembro das ofensas.
Acho que sou tudo isso e, talvez, um sociopata, um doente de amor que
Só serve para torturar e se torturar.
Sou mesmo difícil e teimoso e muitas vezes já tive vontade de terminar comigo.
Mas sempre volto para mim, sempre me amo, me completo apesar de me sentir incompleto
E vazio
Um balão cheio de gás hélio. Apesar de cheio sou vazio, que clichê!
Não tenho paciência para entender o complexo sentimento das mulheres
Estou morrendo e não tenho tempo
Cada minuto que passa estou mais longe da minha juventude,
estou menos jovem
Mais sábio e por isso mais consciente da minha imbecilidade.
Não perco tempo mas perco tempo sim,
perdi meu tempo sofrendo por não ter feito várias coisas.
Perdi meu tempo não indo para o Egito, não quebrando os ossos da mão na cara de um desconhecido, não voando de asa delta, não me alistando no exército, não sendo mais complacente, mais espiritual.
Penso muito no Espaço, ali, logo acima do meu topete, o infinito adiante. Acredito no infinito mas não acredito em Deus, não tenho fé.
Não conseguia dormir, então por isso brigava com todas mulheres que dormiam comigo.
Fui egoísta e menti pensando que eu era um lobisomem dançando a noite toda, um imortal que podia gerar vida dentro de outra vida.
Nunca fui a mesma pessoa, fui sempre várias e para todos menti sobre mim mesmo.
Menti tanto que acredito mais na palavra da minha persona do que em mim mesmo.
Amei de verdade poucas mulheres (tudo isso é por amar uma) mas apenas uma realmente agüentou e olhou para o olho do furacão.
Não sou tão difícil assim, sou metódico, impulsivo, insaciável, hiperativo e outros hiperalgumascoisas, no entanto posso dar carinho, posso dar apoio, posso ser paciente etc e tal.
Mas no momento estou assim meio doido, meio tenso, meio em pânico.
Percebi que as pessoas não me compreendem, que sou um cubo rubiks.
Que sou uma ameaça, que exagero.
Sou um trintão perdido no ruído do Rio, no disco riscado do eterno carnaval da desesperança . Sou vítima do jeito carioca que adaptei
Do veneno da noite que ingeri e do glamour que traguei.
Sou vítima de meu ego, de minha inveja, de meu medo.
Agora só mesmo o amor de verdade para salvar.
Só mesmo um final feliz de filme americano para desintoxicar.
Somente alguém que acredite que não sou um pilantra-cão-sem-dono.
Não se preocupe vou tomar meu Rivotril e ficar calminho vou olhar para você e acreditar
Que o azul é azul e o vermelho é vermelho
E que tudo aquilo que fiz de errado
Nada mais era que excentricidade
Vou acreditar que você está aqui
Que juntos vamos ficar acordados esperando o Halley passar
Que a noite é uma eterna xícara de café
E que ...
Deixa pra lá.
Você não acreditaria em mim
Nem eu em você.

domingo, 7 de setembro de 2008

SAUDADES, FAUSTO WOLFF...

Mandei um email para o Fausto Wolff, conviadando-o para ser entrevistado num programa televisivo que eu produzia - postei no email que seria uma honra tê-lo no programa - o email retornou com seu ok. Combinamos de eu buscar Fausto em Copacabana e levá-lo à entrevista.
No dia e hora marcados encontrei-o em seu apartamento, ele estava bebendo em grandes goladas seu uísquezinho clássico e pediu para esperar um pouco enquanto se arrumava. Que impacto! Estava ali um dos maiores jornalistas e cronistas do Brasil, um cara de um metro e noventa e poucos e profundos olhos azuis - que a princípio parecia pouco afável, no entanto, depois, se mostrou de uma imensa simpatia. Em poucos minutos eu já era fã do homenzarrão.

Pegamos um congestionamento no caminho que possibilitou 20 minutos de conversa. Falamos sobre dois assuntos: seu último livro "A Milésima segunda noite" na época lançado pela Bertrand Brasil e sobre Cinema - Fausto era apaixonado por cinema. Ele me falou sobre seu carinho por Mario Monicelli e por Charles Chaplin - e eu contei um episódio que havia lido sobre Chaplin de como ele descobriu o equilíbrio entre drama e comédia - "Quando Chaplin era menino e vagava por Londres fazendo biscates, numa manhã fria, que havia congelado as ruas, um carneirinho fugiu dum açougue, na correria para pegá-lo muitos passantes escorregavam e levavam tombos homéricos incluindo o carneirinho que escorregava nos seus cascos. Chaplin riu muito das cenas. Finalmente pegaram o carneirinho e o levaram de volta para o açougue. Daí Chaplin caiu na real, aquele carneirinho que proporcionara tanta diversão seria morto dali a pouco". Fausto não conhecia essa história e eu fiquei imensamente lisonjeado por tê-la contado prum cara que eu achava que conhecia tudo. Mas acredito, Fausto conhecia quase tudo.

Chegamos ao estúdio e descubro que a entrevista vai atrasar por causa de um defeito em uma das câmeras. Fausto fala que vai ficar esperando num restaurante, ali perto, que ele conhecia de longas datas.

Resumindo: Uma hora depois fui pegar Fausto e ele havia "matado" uma garrafa de uísque - deixando a conta para produção, conta que nunca paguei, ora!!!

Longe de estar bêbado - como um dos últimos boêmios de uma geração, Fausto precisaria de muito, muito, muito mais para ficar alcoolizado.

Bem, a entrevista foi fantástica e Fausto foi como sempre uma figura explosiva, e dedicou a entrevista, pasmem, à mim, o produtor. E por várias vezes, quase apresentador e entrevistado se estranharam. Ele ainda com o microfone de lapela nos corredores me disse "Viu? É assim que se dirige um programa de televisão!"

O cara era um gênio, um tremendo escritor apesar de numa nota de seu diário escrever "Odeio confessar, mas odeio ainda mais Fernando Sabino, Manoel de Barros, Millôr Fernandes, Rubens Fonseca, Carlos Heitor Cony, Luis Fernando Veríssimo e todos os outros que escrevem melhor que eu". Fausto era um modesto.

Sua escrita era verborrágica, não poupava ninguém. Era destemido, peitava qualquer um. Suas crônicas iam do mais puro lirismo à uma verdade dolorosa e cruel. Misturava seu alto conhecimento de literatura, cinema e de vida, criando textos ricos e profundos. No seu livro "A milésima segunda noite" ele apresenta 1002 crônicas sobre os mais variados assuntos, faz rir bastante e também faz sentir vários socos no estômago. Considero esse livro um dos melhores que já li e tenho ele sempre junto comigo para uma vez ou outra lê-lo como inspiração de como podemos melhorar, em muito, o que escrevemos.

Fausto era um boêmio - gostava de tudo que é bom na vida - usufluiu de tudo isso: mulheres, amigos, bebedeiras, brigas, drogas, literatura, cinema e amor. Viveu como todo mundo queria viver, livre. Como Ruy Castro falou: "Todo mundo queria ser Fausto Wolff...".
É, o Ruy tem razão, eu também queria ser Fausto Wolff.

Saudades...



Abaixo postei a 6ª noite do livro "A milésima segunda noite", aprecio demais essa crônica, é simples, humana e inusitada.

6.

O homem tinha essa idade indefinível, própria dos vagabundos. Era mulato claro, o corpo cheio de perebas, feridas nos pés, no rosto e nas mão. Numa delas trazia uma bandeira do Flamengo. Entrou na Souza Lima e foi dirigindo-se aos berros de "Mengo! Mengo!" em direção à Avenida Atlântica, no Rio. Eu estava tomando um uísque no "Bunda de Fora". Quando o homem entrou no boteco, todos os fregueses saíram para a rua. Ele, além de horendo e assustador, fedia muito. Gritava "Mengo, Mengo, minha paixão!". Eu não estava tão feliz, porque o Flamengo vencera três horas atrás o meu time, o Botafogo. Surpreendendo-se dentro do boteco, o homem acabou focalizando os olhos em mim:

- Paga uma cana, companheiro?

Paguei a primeira, a segunda e a terceira. Na quarta, ele caiu e bateu forte com a cabeça no chão. Abaixei-me e disse:

- Vou te levar para o hospital. Quem é você?

- Mengo, campeão! - sussurou ele, a saliva escorrendo pelo queixo.

- Quem é você? - insisti.

- Eu? Eu sou o homem mais feliz do mundo! - E morreu.

MORRE FAUSTO WOLFF, O JORNALISTA DESTEMIDO

Segundo o JB Online:

Morre Fausto Wolff, o jornalista destemido
Cronista do ‘JB’, ele nunca se curvou aos poderosos
Morreu ontem, às 20h05, o jornalista e escritor Fausto Wolff, de 68 anos, colunista diário do Caderno B do Jornal do Brasil. Ele fora internado na CTI do Hospital São Lucas, em Copacabana, no último domingo, 1º, com hemorragia intestinal. Entrou em coma com quadro de insuficiência respiratória. De acordo com a família, Fausto vinha lutando contra uma tromboembolia pulmonar há mais de dois anos. Deixa a mulher, a psicóloga Monica Tolipan e duas filhas. O escritor Ruy Castro, amigo de quatro décadas, definiu a falta que Wolff vai fazer:
– Houve época no Rio em que todos os homens queriam ser Fausto Wolff. Pela inteligência e pelas mulheres que ele conquistava.
Nascido em 1940, em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, Faustin von Wolffenbüttel teve infância pobre. Começou a trabalhar aos 14 anos como repórter policial e contínuo do jornal Diário de Porto Alegre. De família humilde, mudou-se para o Rio aos 18. Tornou-se jornalista em 1954 e passou por momentos históricos no jornalismo, fazendo parte da turma que editou o primeiro O Pasquim, a partir de 1969. Também esteve por trás da volta do jornal O Pasquim, rebatizado O Pasquim 21, no começo da década. Além do jornal, também atuou como diretor de teatro e cinema e professor de literatura nas universidades de Copenhague e Nápoles.
Escreveu vários livros, entre romances, livros históricos e compilações de crônicas, entre eles Cem poemas de amor e uma canção despreocupada, A imprensa livre de Fausto Wolff, O acrobata pede desculpas e cai e seu último livro, A milésima segunda noite, lançado em 2005 pela editora Bertrand Brasil. "Seus livros evocam uma certa fantasmagoria de ordem interna típica de Edgar Allan Poe: o horror que vem de dentro do ser, pasmo ante um mundo calcado em conceitos de realidade que não admite", declarou o escritor Fernando Toledo sobre sua obra.
Entre livros e traduções
Também se responsabilizou por traduções de livros, como Detonando a notícia: como a mídia corrói a democracia americana, de James Fallows. Foi agraciado com o Prêmio Jabuti com o romance À mão esquerda.
Em áreas mais leves, também editou volumes das célebres Anedotas do Pasquim, lançadas pela editora do jornal, Codecri. Ultimamente, mantinha o site O Lobo (www.olobo.net), com compilações de seus textos, e fazia uma coluna diária no Caderno B, para o qual veio trazido pelo chargista e escritor Ziraldo, a quem conheceu ainda na época do Pasquim. Lá, lançava mão de personagens como Natanael Jebão, que popularizou. Diariamente, criticava a mídia e novidades como o celular e o computador.
– Vai chegando a hora em que a turma vai indo embora – lamenta Ziraldo. – Brigamos muito, nos amamos muito, vivemos muito juntos, muito separados. É como um irmão desgarrado que morre. Ao lado de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, Fausto era um dos cinco melhores contistas do Brasil. Era também um excelente romancista. E escreveu primorosamente como jornalista.
Também atuou em áreas diversas (escreveu textos para revistas como Status, nos anos 70, criticando programas como Fantástico e Globo Repórter) e apresentou programas na TVE, atual TV Brasil. A notoriedade lhe trouxe muitos admiradores.
– Fausto era um homem rigoroso e muito abusado, abusava da saúde, bebia muito, era ninfomaníaco – diz o amigo cartunista Chico Caruso. – Tinha parado de beber há mais de um ano, estava tomando só guaraná. Era muito bom escritor, as crônicas dele no Jornal do Brasil eram ótimas, inteligentes e atuais. Era da geração do Pasquim, de um Rio de Janeiro que passou por revoluções no jornalismo.
Torres exalta como grande característica de Wolff o fato de sempre ter se colocado na contramão das tendências.
– É a minha geração que está indo embora. É muito triste e preocupante – chora o escritor Antonio Torres. – Ele era um escritor muito combativo. Parecia um sujeito muito brigão, mas, na verdade, na relação pessoal, era afetuoso. Eu via o Fausto Wolff como um menino grande. Tinha muito carinho por ele, embora tivéssemos convivido muito pouco. Era uma relação respeitosa, porém distante. Eu o acompanhava muito, principalmente na última fase, no JB, quase diariamente. Ele se colocava na contramão das tendências, das modas, de tudo. O que me parecia absolutamente necessário.
O chargista Nani, que trabalhou na revista Bundas e em O Pasquim 21, diz que Wolff era um dos últimos jornalistas nesse país a empunhar a bandeira de ser destemido.
– Ele acreditava no jornalismo de opinião, de denúncia. Nunca se curvou aos poderosos, sem perder o humor. Estivemos juntos em veículos alternativos e no JB.
A coluna de Fausto Wolff publicada hoje, no Caderno B, é repetida devido à sua doença. Seu último texto é de 21 de agosto, sobre Spartacus: "Não se sabe a idade que Spartacus tinha quando morreu ou como era o seu tipo físico. Dentro de alguns anos será confundido com a cara de Kirk Douglas. Fico me perguntando quem teria sido na pré-renascença o primeiro modelo para um retrato a óleo de Jesus. Tudo é mentira, menos a imaginação".
06 de julho de 2008 : 01h00m